Inferno Verde / Paraíso Perdido
Conheci um artista que ao pesquisar sobre as dores emocionais da imigração identificou a constante visita de imigrantes da América Latina à estufa de plantas tropicais do Jardim Botânico de Londres. Estar perto das plantas provenientes de seus locais de origem os faziam sentir-se em casa, os acalmava, os consolava, os abraçava. Além da vibração da vegetação, a temperatura e a humidade ambientes destoavam do clima londrino, era uma espécie de útero, de abrigo primevo para esses corpos tropicais. É comum entre nós, latino-americanxs, a dificuldade em adaptar-nos ao inverno europeu. Mesmo a estação na soalheira Lisboa custa a passar. Sentimo-nos como as árvores que perdem a cor e as folhas, que ficam em estado de hibernação. Não se trata de determinismo geográfico, mas de corpos que são amalgamados à determinados biomas e cuja aclimatação a outros meios é custosa. Neste sentido, uma pintura de paisagem pode ser uma tentativa de colocar para fora algo que está dentro de nós.
A artista Stefanie Pullin foi criada na Guatemala, um território que se assemelha ao litoral nordestino brasileiro, minha região de origem. Assim como ela, cresci num jardim repleto de flores semeado por meus pais. Relacionei-me imediatamente com suas pinturas verdejantes, senti-me em casa. Percebi o seu gesto como a exteriorização de um lugar no mundo e a sua sobreposição a outro lugar no mundo: de onde viemos, onde estamos. Ser imigrante é muitas vezes ter duas casas, duas pátrias, dois passaportes. É viver num entrelugar, numa zona limítrofe, que só outros imigrantes entendem em profundidade.
As paisagens apresentadas nesta exposição, portanto, não são meras paisagens. À primeira vista podem ser confundidas com os relatos visuais de artistas viajantes europeus embasbacados com a exuberância da vegetação dos trópicos, muitas vezes entendida como inferno verde ou paraíso perdido. Mas, como se sabe, trata-se de um ponto de enunciação muito distinto. Stefanie Pullin nos faz imergir em jardins que entrelaçam memórias e ficções, numa viagem entre tempos e espaços. A persistência do verde é proposital, remetendo-nos a esta parte do mundo em que as plantas não perdem a cor e nem suas folhas, gerando uma espécie de monotonia verdosa. Importante ressaltar as listas verticais que estruturam a composição das telas: ao mesmo tempo em que conferem uma aparência de permanente humidade, escorrimento, fluidez, interligam céu e terra, espaço aéreo e raízes profundas, deslocamento e enraizamento.
A única ruptura deste cenário é a presença das Helicónias Rostratas, flores oriundas da América do Sul e América Central, também chamada de pássaros-de-fogo, Caeté e Bananeira-do-Mato, no Brasil. Apesar de ser a flor nacional da Bolívia e do Peru, seu nome é uma homenagem ao Monte Hélion, na Grécia, onde acreditava-se que vivia Apolo e as musas inspiradoras das artes. A cor intensa das Helicónias marca um ritmo na caminhada mata adentro, numa mistura de lembrança e miragem. A flor remete sobretudo ao estar no mundo tropical, já que seu ciclo de vida é perene e se forem bem cuidadas podem florir o ano inteiro, mas durante as estações mais quentes é que podemos ver sua total beleza.
Cristiana Tejo
Lisboa, solstício de verão 2023